quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Nascer é superar dificuldades.


Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.
Clarice Lispector




Veja as dificuldades que passamos para começar a viver.
Começamos uma viagem fantástica pelo interior do corpo humano

(...)
Ao nascer, ouvimos melhor do que em qualquer outra fase da vida. Mas enxergamos mal. O mundo está embaçado e sem cor.

Com seis semanas de vida, uma simples ida ao supermercado é uma sobrecarga de estímulos. O ambiente é barulhento, cheio de luzes e de cheiros.

No interior do nariz, os nervos olfativos recebem as correntes de ar que respiramos. Eles detectam as moléculas dos objetos que nos cercam, e enviam um sinal elétrico para o cérebro.

O cérebro interpreta esses sinais como cheiros e nos transmitem a sensação olfativa.
O olfato é muito sensível. Aprendemos depressa a reconhecer odores e a identificar nossas mães com o nariz.

O mundo em nossa volta é cheio de ruídos. Ondas sonoras fazem vibrar essa estrutura que você vê esbranquiçada: é a membrana do tímpano. As vibrações são transmitidas para dentro do ouvido, onde estão situados três ossos minúsculos: martelo, bigorna e estribo, os menores ossos do corpo humano. Cabem na ponta de um dedo, e ficam do mesmo tamanho pelo resto da vida.

Esses ossinhos amplificam as vibrações transmitidas pela membrana do tímpano. Amplificam 22 vezes o volume do som. As vibrações penetram uma estrutura em forma de caracol, situada no ouvido interno: a cóclea.

O interior da cóclea é revestido por camadas de cílios muito delicados: medem 200 vezes menos do que um fio de cabelo. Quando as vibrações sonoras passam, eles vibram. Com o passar do tempo, sons mais intensos lesarão progressivamente os cílios mas, nesta idade, eles funcionam perfeitamente.

Nosso ouvido jamais será tão perfeito como agora. Com a visão, é diferente. O mundo se apresenta embaçado e sem cores. Os olhos são tão imaturos que não conseguimos direcioná-los para o local desejado, e o cristalino não é capaz de encontrar o foco.

Os bebês não conseguem enxergar cores porque a retina, a camada situada no fundo do olho, também está imatura. Na retina existem os cones e os bastonetes, células especializadas em transformar luz em sinais elétricos.

Os cones, encarregados de detectar as cores, ainda estão em desenvolvimento. Por isso, vemos tudo em branco e preto.
Da retina, os sinais caminham pelos nervos ópticos e são enviados para o a parte de trás do cérebro, que vai processar as imagens recebidas. Enxergamos com o cérebro, não com os olhos.

Quando as imagens chegam ao cérebro, surge outro desafio: como interpretar os dados com o sistema nervoso ainda imaturo? Mas o progresso é rápido.

Aos dois meses, conseguimos distinguir cores e sombras. Aos quatro, identificar faces.
E, aos oito meses, nossa visão está completa. Os olhos sofrem outra transformação extraordinária.

Quando nascemos, eles estão azulados. Gradualmente, as células da íris, a menina dos olhos, começam a produzir pigmentos que a escurecem. O padrão de deposição desse pigmento varia tanto, que se torna uma característica individual única, como se fosse uma impressão digital.

Nos primeiros três meses, crescemos um quarto de nosso peso a cada mês. Felizmente, esse processo não dura muito. Se persistisse, aos quatro anos, pesaríamos 134 toneladas: tanto quanto uma baleia azul.

Aos oito meses, todos os sentidos funcionam adequadamente. Começamos a explorar o mundo e o sentido mais usado é o tato. Quando tocamos um objeto, receptores localizados sob a pele enviam sinais elétricos através dos nervos sensitivos, que caminham pelos braços e medula espinhal até o cérebro.

Os impulsos trafegam em velocidade vertiginosa: 320 quilômetros por hora. Nós temos receptores sensoriais espalhados pela pele inteira, mas algumas áreas são mais sensíveis do que outras: as mãos, a face e a boca. Existem 9 mil receptores apenas na língua. É por isso que os bebês usam a boca para explorar o mundo.

A digestão começa na boca. Os dentes trituram os alimentos. Pequenas glândulas sob a língua produzem saliva para começar a digeri-los.a saliva também lubrifica os alimentos para facilitar o percurso de 12 horas que serão obrigados a fazer pelos quatro metros de intestino.

Músculos que se contraem em ondas, criam o movimento peristáltico, que empurra o bolo alimentar para a frente.As contrações são tão poderosas que conseguimos comer até de cabeça para baixo.

Pela primeira vez, uma câmera permite filmar em alta definição a chegada no estômago. O estômago é um reservatório com paredes musculares que se contraem para transformar os alimentos em líquido, com a ajuda do suco gástrico, muito ácido.

O ácido é tão corrosivo que as paredes internas do estômago precisam ser constantemente protegidas por uma camada de muco. Sem ele, surgem as úlceras. Cerca de uma hora mais tarde, o estômago espreme a comida por uma passagem estreita, o piloro, que o separa do duodeno.
O duodeno é a primeira porção dos 3,5 metros de alças que constituem o intestino fino, onde serão absorvidos os principais nutrientes. O primeiro passo é dado pelo pâncreas, ao produzir um suco que neutraliza o ácido do estômago.

A bile, do fígado, transforma as gorduras em gotas pequenas. O interior das paredes intestinais possui milhões de projeções microscópicas, chamadas vilos, que aumentam a superfície do intestino, facilitando a absorção.

Depois de mais uma hora e meia, o intestino já absorveu a maior parte dos nutrientes.
O que sobra chega ao intestino grosso através da válvula íleo-cecal. Essa válvula impede que os alimentos voltem, no sentido inverso.

A principal função do intestino grosso é absorver água. O que sobra é uma mistura de restos alimentares, células mortas e bilhões de bactérias. As bactérias do intestino grosso não causam infecção. Elas são importantes porque produzem as enzimas que quebram os carboidratos complexos, que o intestino não conseguiu digerir.

Finalmente, depois de 12 horas, o corpo elimina o que sobrou da refeição. Aos nascer, nossos ossos são flexíveis como as cartilagens, para facilitar a passagem pelo canal de parto. Depois do nascimento, células chamadas osteoblastos, entram em ação para tornar os ossos mais resistentes.

Com um ano, estamos prontos para andar. Para os primeiros passos, não basta força, é preciso equilíbrio. E o segredo do equilíbrio está guardado dentro de nossos ouvidos.

Na parte mais interna dos ouvidos, existe uma estrutura com três alças dispostas em três planos. Esses canais semi-circulares são cheios de líquidos. Quando o líquido balança com o movimento, os cílios da parte interna dos canais enviam dados para o cérebro identificar a posição espacial em que o corpo se encontra.

Podemos andar. Agora não há mais limites para o que conseguimos fazer.


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